Menino do mato (Manoel de Barros)
Nosso conhecimento não era de estudar em livros.Era de pegar de apalpar de ouvir e de outros sentidos.
Seria um saber primordial?
Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor
e não por sintaxe.
A gente queria o arpejo. O canto. O gorjeio das palavras.
Um dia tentamos até fazer um cruzamento de árvores
com passarinhos
para obter gorjeios em nossas palavras.
Não obtivemos.
Estamos esperando até hoje.
Mas bem ficamos sabendo que é também das percepções
primárias que nascem arpejos e gorjeios.
Porém naquela altura a gente gostava mais das palavras
desbocadas.
Tipo assim : Eu queria pegar na bunda do vento.
O pai disse que o vento não tem bunda.
Pelo que ficamos frustrados.
Mas o pai apoiava nossa maneira de desver o mundo
que era a nossa maneira de sair do enfado.
A gente não gostava de explicar as imagens porque
explicar afasta as falas da imaginação.
A gente gostava dos sentidos desarticulados como a
conversa dos passarinhos no chão a comer pedaços de mosca.
Certas visões não significavam nada mas eram passeios verbais.
A gente sempre queria dar brazão às borboletas.
A gente gostava bem das vadiações com as palavras do
que das prisões gramaticais.
Quando o menino disse que queria passar para as
palavras suas peraltagens até os caracóis apoiaram.
A gente se encostava na tarde como se a tarde fosse um poste.
A gente gostava das palavras quando elas perturbavam
os sentidos normais da fala.
Esses meninos faziam parte do arrebol como
os passarinhos.
(Manoel de Barros - Cuiabá(MT)/1916)
L’enfant des bois
(Manoel de Barros – Trad. Max de Carvalho)
Notre savoir ne s’apprenait pas dans les livres.
Mais en touchant en palpant en écoutant et par d’autres sens encore.
Était-ce un savoir primordial?
Nos mots s’assemblaient les uns aux autres par amour
et non par syntaxe.
Nous voulions l’arpège. Le chant. Le gazouillis des mots.
Un jour nous essayâmes même de réaliser un croisement d’arbres
et d’oiseaux
afin que nos mots gazouillent.
Sans succès.
Nous l’attendons toujours.
Mais nous avons compris que les arpèges les chansons les gazouillis
naissaient aussi des perceptions primaires
Toutefois en ce temps-là nous préférions les mots
débridés.
Du genre : Je voudrais attraper la fesse du vent.
Père dit que le vent n’a pas de fesse.
Cela nous déçut.
Cependant, Père appuyait notre manière de dévoir le monde
qui était notre manière à nous d’échapper à l’ennui.
Nous n’aimions pas expliquer les images parce
qu’expliquer éloigne les langages de l’imagination.
Nous aimions les sens désarticulés comme le
babil des petits oiseaux se disputant des bouts de mouche par terre.
Certaines visions ne signifiaient rien mais étaient des promenades verbales.
Nous voulions toujours attribuer des blasons à des papillons.
Nous préférions les vagabondages de mots
aux prisons grammaticales.
Quand le gamin déclara qu’il voulait communiquer
ses espiègleries aux mots même les escargots l’approuvèrent.
On s’appuyait au soir comme si le soir était un lampadaire.
Nous aimions les mots quand ils perturbaient
les sens normaux du langage.
Ces gamins faisaient partie des rougeurs de l’aurore autant que
les petits oiseaux.
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